Projeto de Pesquisa: Uma identidade visual para Cunha

Alberto Cidraes

Colocação conceitual

Um projeto de pesquisa é um ponto de interrogação. Nele se pretende olhar um pouco mais fundo que a superfície das coisas. Seja ele qual fôr, seu objetivo principal é colher subsídios para modificar a realidade num sentido que propicie a evolução positiva do mundo nos campos, espiritual, filosófico, social e material. Em design, o conteúdo do projeto é sempre mais importante do que a forma e a discussão de significados deverá ser esgotada antes do surgimento da solução.

Tipológicamente, entre a megalópolis como São Paulo e a natureza virgem existe uma variedade de ambientes espaciais intermediários em que a intervenção humana vai do pesado ao nulo, passando pelo leve, ao qual me referirei mais tarde.

Até ao século XX prevaleceu uma atitude de humanismo radical em que o homo sapiens era considerado o centro do universo e tudo o que de novo fosse criado aconteceria para servi-lo. O Modernismo pode ser considerado o ápice do refinamento dessa forma de pensar.

Em tempos recentes as faixas mais esclarecidas e menos interesseiras da sociedade verificaram o dano que o progresso material descontrolado causa ao próprio sustentáculo físico da espécie. Isso representa naturalmente uma forma de suicídio, não individual, mas do grupo, representado pela gerações vindouras, sem falar na aniquilação de grande parte da riqueza genética, representada pelos seres vivos não humanos, aos quais deverá ser estendido o beneplácito da democracia.

O equilíbrio ecológico pode ser quebrado por qualquer espécie, por exemplo por diminuição de seus predadores naturais ou por aumento de seu poder de fogo, o que é o nosso caso.

O pensamento ecológico representa uma oportunidade para repensar a forma como o ser humano se coloca espacialmente no planeta através da arquitetura e do design. Podemos pensar isto como uma extensão ainda não explorada do Modernismo ou como um contraponto a ele, como quisermos.
Pessoalmente vejo a grande metrópole como uma grande necrópole em potencial, como um câncer que não só destrói o ambiente físico em que se apoia, tornando a sobrevivência eventualmente impossível, mas também extende metástases que replicam essa mesma destruição em ondas crescentes, pelo ar, pela água, pela terra e pelo fogo, irónicamente os quatro elementos clássicos. O equilíbrio ecológico na cidade ou mesmo um contributo modesto dela para esse mesmo equilíbrio em geral, me parece um sonho impossível.

Assim, qual o sentido do design? Cosméticamente enfeitar o modelo não sustentável em que estamos mergulhados ou tentar chegar mais fundo na utopia do melhoramento real? O primeiro me parece fútilmente mergulhado num status quo com os dias contados e o segundo, uma ambição, um desafio, uma missão impossível. Se optarmos pelo segundo objetivo possível do design aceitaremos a missão impossível de tudo rever, de não deixar pedra sobre pedra na análise do contexto, do alvo da ação, indivíduo, grupo ou espaço, suas necessidades, seus anseios e suas carências. A frieza científica não é mais possível. Ficar em cima do muro também não, porque o muro ele mesmo será arrastado pela enxurrada que não soubermos prevenir. A discussão dos conteúdos se torna mil vezes mais importante que o culto da técnica e da evolução material.

Que podemos então fazer através do braço ordenador do design? Cada um terá com certeza sua resposta. Pela minha parte, acho que estamos necessitados de projetos-piloto de intervenção humana no planeta,e assim escolheria um local ou caso em foco, que tivesse sofrido ao longo dos séculos um tipo de intervenção leve (pelo menos se comparada com a megalópolis).

Os pequenos aglomerados humanos estão mais perto que as metrópoles do equilíbrio. Eles anunciam melhor o que poderia ser uma espécie humana integrada, numa utopia que poderiamos chamar de paraíso. Assim, sua reformulação através do design e da arquitetura se apresenta como uma tarefa menos ciclópica do que a intervenção profunda na cidade grande, com possibilidade de gerar resultados a mais curto prazo.

O município de Cunha me parece um caso interessante de uma ocupação humana em mutação que pode ser alvo de um projeto integrador de design com intenções ecológicas profundas. Extenso e isolado nele se desenvolveu uma microcultura sui-generis resultante de uma interação de grupos étnicos que se chocaram nas encruzilhadas do caminho do ouro. Ela foi resultado mais da carência do que da abundância e sua visão retrógrada do mundo, que foi desvantagem, está no limiar de se tornar qualidade, principalmente se associada com a revolução cultural trazida por elementos do exterior nos últimos 50 anos. Cunha está se tornando num lugar de retiro e reflexão, contraponto à tensão vertiginosa da metrópole. A visitação, que alguns chamam inapropriadamente de turismo, é feita por pessoas que anseiam por um regresso à natureza, por uma prática menos burocrática do trabalho, por uma vida menos consumista e mais tranquila: por uma reformulação da existência substituindo a cobiça pelo significado, a tensão pelo equilíbrio, a poluição pelo interior. Cunha se espraiou por montes e vales e esse fato está testemunhado em vistas de cima, possíveis sem sair de Cunha. O casario possui pontos de vista em que o ser humano está próximo da abelha, apenas mais desordenado.

Existe uma harmonia medieval na forma totalmente anárquica como a cidade cresce. A favela é inexistente como conceito. Um dos responsáveis deste estado de coisas é a manufatura do tijolo, tradicional na área. O conhecimento da cerâmica, da queima do barro vem desde os índios que possívelmente são a fonte de informação das paneleiras. A cerâmica tem vocação para se apresentar como design. Em 1975 viemos para Cunha em grupo tricontinental que imprimiu uma identidade multicultural na cerâmica produzida em Cunha. A cerâmica se tornou o carro chefe do desfile cultural de Cunha. A natureza, matas, cachoeiras estão hoje na boca de todos. Grupos ecologistas de expressão se fixam ou se debruçam sobre Cunha como projeto. A gastronomia se afirma assim como o alojamento rústico. Cunha terá também vocação para centro de terapias múltiplas. A cerâmica poderá ser um veículo terapêutico. A grande concentração de professores universitários, artistas, ex-jornalistas, publicitários, fotógrafos, alguns deles donos de pousada, torna Cunha o lugar ideal para criar uma instituição de ensino em moldes alternativos.

A tarefa mais importante no momento é proceder à integração de Cunha consigo mesma, como comunidade. Os elementos locais da cultura e os importados precisam funcionar de forma complementar, na área da cerâmica, da música, dos festivais e eventos, etc. A arquitetura como exterior pode ser melhorada, com passos bem leves e intervenções simpáticas. Cunha como polo cultural precisa do intercâmbio da visitação. Por isso, e para melhorar a auto-estima e a vida dos habitantes, ela precisa se embelezar.

Cunha também tem problemas graves como o do lixo, a captação de água encanada já poluída por dejetos humanos e animais (ainda que competentemente tratada) e esgoto direto no rio. Ela não é um paradigma ecológico. Mas pode se tornar se conseguir fortalecer uma tomada de posição que gradativamente vem assumindo.

Projeto

O projeto de pesquisa a que me proponho tem como objetivo o descobrimento da identidade visual de Cunha. Isso pede uma análise do contexto seguida de uma proposta de solução global.

A estrutura física urbana surgiu gradualmente de forma espontânea. Por sua forma tentacular a massa construída conserva a capacidade de respirar. A cidade descansa em seu leito ondulado de montes e vales, confortávelmente. Mas não teve tempo, recursos, energia, conhecimento ou motivação para cuidar dos detalhes. Casas inacabadas, terrenos baldios, áreas indefinidas ou deficientemente tratadas e utilizadas.

A cidade precisa identificar seus símbolos, o Fusca e a cerâmica por exemplo, e transformá-los em imagem de marca, ela precisa de sinalização e percursos. Ela precisa divulgar e embalar seus produtos, melhorar suas calçadas, criar ambientes públicos de suporte ao lazer e ao convívio. Ela precisa criar mecanismos de repasse da riqueza cultural e científica de uns para preencher a carência educacional de outros.

O resultado visual de todas estas ações pode ser gerado através de projetos de design interligados num plano global para a cidade, com o sentido de Projeto de Identidade. Quem somos, donde viemos, para onde queremos e devemos ir? As respostas a estas questões informam e suportam as soluções que propusermos.

Tudo na verdade é cultura e tudo o que visualmente produzimos é design, ao serviço dessa cultura.

O pensamento analítico, ferramenta importante, não pode mais ditar as regras de jogo. A emoção, o espírito, a magia, a fantasia e o sonho, são componentes fundamentais da equação e o design além de cumprir uma função, precisa inventar um novo mundo, melhor se possível.As peças componentes do projeto global poderiam ser enumeradas assim:

1. Plano diretor urbano e rural.
Mapeamento cultural- mapas: orgânico (literal) ou geométrico (simbólico)
Natureza e serviços, aliados ou concorrentes?
O município visto como uma unidade em que a cidade e a roça dialogam e se complementam.
O plano como tentativa de organização espacial, acrescentando contribuições e estimulando ou refreando iniciativas em colaboração e sem confronto com a população e instituições.
2. Projeto visual integrador dos espaços exteriores urbanos.
Crescimento informal e planejamento visual.
Público e privado unidos no objetivo de tornar a cidade limpa, atraente, interessante e acolhedora.
A dimensão vertical, privada, assumindo sua responsabilidade na modelagem do espaço comum e a horizontal, pública, servindo e conectando o privado.
Como de uma forma simples, usando materiais naturais (não agressivos ao ambiente) pode ser reformulada a imagem da cidade.
3. Sinalização ambiental.
Informação visual cumprindo eficientemente sua função e se integrando no contexto.
Como fornecer a informação escrita ou sígnica sem interferir na naturalidade ambiental?
4. Embalagem.
Proposta de identidade "Cunha", selo auto-colante por exemplo, a ser colocado nas embalagens de produtos culturais e gastronómicos gerados no município.
Acessoria aos produtores culturais sobre embalagem.
5. Material impresso e multimídia de divulgação.
Imagem de identidade simples e fácilmente reconhecível, presente em todo o material visual de divulgação: selos, folhetos, mapas, cartazes, CDs, videos e Internet.

Conclusão

Este projeto deverá ser executado como projeto escolar, emblemático de parcerias-piloto de associação entre universidades e comunidades do tipo a que me refiro: projeto levado a cabo por um ou mais professores e alunos, com sentido não só de exercício escolar mas também de acessoria a comunidades carentes em Design.
Ele pode ser um ponto de partida para uma discussão que defina a metodologia para Análise do Contexto.